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fundação de Beja atribui-se aos Celtas, 400 anos antes de Cristo. Diz-se que esteve sob o domínio dos Cartagineses, mas o que não oferece dúvidas é que os romanos a dominaram durante muitos anos, sendo então Beja uma cidade importantíssima. Chamava-se Pax Julia e foi assim denominada para comemorar a pacificação da Lusitânia.

Em 48 a.C. cessara a longa e próspera resistência dos lusitanos e Júlio César celebrara pazes, concedendo regalias e direitos. Nas diferentes fases do domínio romano Beja teve sempre lugar eminente: gozou do direito itálico, foi sede dum convento jurídico e duma das quatro chancelarias criadas pelo imperador Augusto na Lusitânia. Na organização de Augusto (24 a.C.) e na de Tito (ano 75) Beja figura como das principais cidades da Lusitânia. Augusto mudou-lhe o nome para Pax Augusta, o que não prevaleceu.

Com a queda do império romano, passou Beja para o poder dos Suevos e depois dos Godos, que nela instituíram uma sede episcopal, sendo seu primeiro bispos Santo Aprigío.

Santo Aprigío.

Prelado do Séc. VI, foi o primeiro bispo de Beja. Tornou-se célebre pelos seus comentários ao "Apocalipse" e ao "Cântico dos Cânticos", hoje apenas conhecidos pelas referências que lhe fazem outros autores, como Santo Isidoro de Sevilha.Jorge Cardoso (in Agrologio Lusitano) provou que os depoimentos de vários escritores concordam em dar como bispo de Beja e não de Badajoz, como pretendem alguns espanhóis. Na Biblioteca Lusitana, também se refere Diogo Barbosa Machado a este santo prelado.

Diz-se haver-lhe sucedido Palmacio que no ano 589 esteve no III Concílio de Toledo. Segue-se Modario e Deodato, que assistiu ao VIII Concílio de Toledo em 653. O sucessor deste foi João, prelado ilustríssimo. Nenhum outro bispo governou a diocese até à queda da monarquia visigótica.

Do séc. VIII ao séc. XII teve Beja uma agitada história. Conquistada pelos Mouros em 715, foi tomada por Afonso I, rei de Leão e das Astúrias, e três anos depois por Fruela I, rei de Oviedo, que teve de a ceder a Abd-el-Raman em 760. Ficou depois em poder dos sarracenos durante século e meio. Ordonho II reconquistou-a em 910 ou 914, mas em 985 Almansor tomou-a novamente.

Em 1037, Fernando, "o Magno", de Leão, possuiu-a por algum tempo e em 1155 foi tomada por D. Afonso Henriques, que a perdeu novamente, vindo a cair definitivamente em poder dos cristãos no ano de 1162, conquistada por um grupo de burgueses capitaneados por Fernão Gonçalves. Em 1179 tentaram os Mouros ainda recuperar a povoação mas foram repelidos por Sancho I, num combate em que perdeu a vida Gonçalo Mendes da Maia, "O Lidador" (Encontra-se, no Jardim Público, um painel de azulejos ilustrando a queda do famoso guerreiro perante os Mouros) com, segundo reza a história, 95 anos de idade.

Gonçalo Mendes da Maia, "O Lidador"

Célebre barão português dos séc. XI e XII, descendente de um bastardo do rei Ramiro II de Leão e cognominado o Lidador pelas suas constantes lides contra os Mouros.

Era filho de D. Mem Gonçalves, 3. chefe da casa dos Maias, e de D. Leodegunda Soares, a "Tainha", da casa dos Baiões. Uma narração do Nobiliário do conde D. Pedro, apesar de inçada de temerosas dificuldades e de não poucos absurdos, fê-lo passar à imortalidade como protagonista de uma célebre acção guerreira junto a Beja, contra o rei Almoliamar, quando era já de 95 anos a sua idade.

Não admira que depois de tantas lutas e combates que pela sua posse se realizaram, Beja, chegasse ao séc. XIII completamente arrasada e destruída. D. Afonso III repovoou a vila e dotou-a com obras de defesa cuja construção se prolongou pelos reinados seguintes. A diocese de Beja, que durante o domínio sarraceno passara para Badajoz, só no reinado de D. José foi restaurada, sendo seu primeiro bispo D. Frei Manuel do Cenáculo. D. Afonso V criou o ducado de Beja a favor de seu irmão, o infante D. Fernando, e D. João II concedeu o mesmo título a seu primo D. Manuel, depois de rei. Desde o reinado de D. Manuel, foram duques de Beja os filhos segundos dos reis, até D. Pedro IV, que fez duque do Porto o filho segundo, e duque de Beja o filho terceiro.

Beja teve foral dado por Afonso III em 1254, confirmado por D. Dinis em 1291. Foi elevada à categoria de cidade em 1517. D. Manuel chegou a organizar o processo para o foral novo, que não chegou a ser dado.

Beja foi berço de notáveis individualidades da história pátria, como S. Sesinando, o célebre filósofo judeu Espinosa, a rainha D. Leonor, André, Diogo e António de Gouveia, João Afonso de Beja, D. Frei Amador Arrais, Jerónimo Arrais, D. Frei António Gouveia, Jacinto Freire de Andrade, Mariana Alcoforado, José Agostinho de Macedo, D. Francisco Alexandre Lobo, etc...

Mariana Alcoforado

"Dona Brites insistiu, há alguns dias, para me fazer sair do meu quarto e, julgando divertir-me levou-me a passear à janela donde se vê a Porta de Mértola; segui-a, mas fui de repente assaltada por uma recordação cruel que me fez chorar todo o resto do dia". (Primeira Carta).

O Museu Regional possui o mais importante fundo bibliográfico sobre Mariana Alcoforado e as "lettres portugaises", assumindo particular relevo as preciosas edições dos séculos XVII e XVIII.

Joaquim Figueira Mestre in "Beja, Olhares sobre a Cidade"

Muitos poucos vestígios existem, em Beja, que recordem o tempo do domínio romano. A fúria de destruição das guerras e dos homens levaram quase tudo o que atestava a grandeza da antiga Pax Julia. No entanto encontram-se ainda os restos dum aqueduto romano junto da igreja do Pé da Cruz e no museu arqueológico, cipos, inscrições, objectos de cerâmica, sepulturas, esculturas, etc. Tem o castelo de construção romana, reconstruído por várias vezes, nomeadamente no reinado de D. Afonso IIII, D. Dinis e D. Fernando. Tinha 4 torres, 5 portas e 2 postigos, que ainda existiam no fim do séc. XVIII, e de que hoje restam alguns trechos mutilados. No castelo, que é um monumento nacional, destaca-se a Torre de Menagem foi edificada por D. Dinis em 1310 e possui uma coroa de ameias piramidais. Tem três andares e cada um uma sala de abóbada artezoada. Do seu ponto mais alto goza-se de um panorama extraordinariamente belo, até aos limites do horizonte.

Torre de Menagem

Castelo de Beja

Voando lá vais

Tu fazes inveja

Às águias reais

(Mário Beirão)

Ao Castelo de Beja e à sua torre estão ligados alguns acontecimentos onde a história e a tradição se confundem, criando à sua volta uma auréola de fantasia e lenda.É a figura heróica do Lidador Gonçalo Mendes da Maia, lutando contra os mouros e morrendo no campo de batalha, depois de ter ferido mortalmente o rei mouro Almoliamar.É o linchamento pelo povo fiel ao Mestre, do Almirante Lançarote Pessanha, na torre onde se encontrava preso, na sequência dos conturbados acontecimentos da Revolução de 1338-85. É enfim o episódio passado já no reinado de D. João II, em que dois nobres que atentaram contra a vida do “Príncipe Perfeito”, foram presos na Torre de Menagem, onde aguardavam a sentença de morte; e houve alguém que lhes fez chegar peles de carneiro, cordas e paus, com o que fizeram umas asas e se atiraram do eirado da torre. Um deles morreu na queda, mas o outro apesar de ter partido uma perna, conseguiu com a ajuda de companheiros, fugir para Espanha...Segundo a tradição e alguns escritos coevos, terá sido D. Dinis que a mandou construir, sofrendo posteriormente algumas modificações nos reinados de D. Fernando e D. João I.

Joaquim Figueira Mestre in "Beja, Olhares sobre a Cidade"

A Cidade de Béja, situada quasi no meio do Alentejo, ergue-se sobranceira em uma eminência; dominando vastas planicies, que de todos os lados a rodeiam, e offerecem ao espectador as mais graciosas perspectivas, as mais férteis e ricas campinas.Apresenta esta cidade, coroando a montanha em que se assenta, a forma elliptica, quasi circular.Dista de Lisboa 27 legoas.-- De Évora 11.-- De Mértola 9.-- De Serpa 4.-- De Moura 7.-- De Alcácer do Sal 11.

(Beja no Anno de 1845 por José Silvestre Ribeiro)

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